LOS ROQUES: A Venezuela que não se houve falar.

A todo instante meus olhos varriam o horizonte de maneira atenta, além da preocupação normal com o tráfego de embarcações havia o suposto risco de ataques piratas. A decisão de navegar  para a Venezuela foi tomada após muita consideração e estudo, e a vontade de conhecer o mundo e suas belezas era maior que qualquer temor.

Após 280 milhas náuticas navegadas desde Grenada, em um amanhecer ensolarado estávamos em águas Venezuelanas, não havia qualquer indício de perigo, pelo contrário, a primeira embarcação que avistamos no arquipélado de Los Roques  se chamava “So Far so Good” , algo como “Até aqui tudo bem”.

Com desconfiança baixamos âncora em frente à Gran Roque, maior ilha do Arquipélago e que abriga sua única vila. Vista da ancoragem Gran Roque era apenas um pequeno amontoado de ranchos de pesca, uma paisagem muito árida lhe dava ares de faroeste.

A enorme bandeira da Venezuela foi nosso guia até a sede da Guarda Costeira, onde simpáticos oficiais da Força Nacional Bolivariana nos receberam e começaram a desfazer qualquer temor restante. Após uma longa explicação do burocrático processo de entrada no país e a cobrança de 30 dólares em propina, nos deixaram seguir adiante aos outros 4 escritórios. ( Sede do Parque Marinho, Imigração, Alfândega e Capitania dos Portos).

Feita a papelada, aleatoriamente escolhemos um simpático restaurante a beira-mar, não sabíamos ainda, mas nossa escolha não poderia ter sido mais acertada. Por 20 dólares (sim, USD, pois os bolivares se tornaram raridade nessa ilha e a economia está se baseando na moeda americana), tomamos, cerveja, sucos, drinks, além de 4 pratos de frutos do mar preparados de maneira deliciosa. Viva a culinária latina, me desculpem Grenada, BVIs e as outras das West Indies, mas a Culinária não está entre suas maiores virtudes.

O que encontramos na vila foi uma população alegre, que não está alheia aos problemas vividos no continente, mas Los Roques está ilhada no que diz respeito à violência e aos perigos da Venezuela continental. O desabastecimento é evidente, nos mercados poucos itens aparecem esparsos nas prateleiras e nos restaurantes as opções de comida são poucas. Gran Roque nos pareceu de um dia-a-dia acolhedor e tranqüilo, crianças brincando nas ruas, escolas e unidades de saúde bem cuidadas, cachorros e mais cachorros por todos os lados e um povo simpático e solícito.

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Gran Roques

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Farol em Gran Roque
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Vista da vila de Gran Roque

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Nâo tínhamos tempo a perder, e no dia seguinte sairíamos a explorar o Arquipélago de Los Roques, traçamos nosso plano baseado nas conversas que tivemos com locais, a primeira parada escolhida foi o Caio Franscisqui. Como se mostraria regra por aquelas bandas a navegação foi complicada, as cartas nem sempre condizem com a realidade e são muitos os bancos de areia, baixios e bancadas de corais que emolduram as desertas praias deste paraíso na Terra. Os diferentes tons de azul revelam o caminho, e chegamos a uma protegida ancoragem, com água azul turquesa e praias de areia branca pra qualquer lado que se olhasse.

Desembarcamos para explorar as ilhas e encontramos uma enorme piscina natural cercada por corais. Na primeira imersão o primeiro choque, o grau de preservação dos corais a exuberância da fauna marinha e a transparência da água justificava de imediato a fama de Los Roques como uma das “Mecas” do mergulho mundial. Somente aquela hora que passamos nadando entre cardumes de peixe de todas as cores e enormes colônias de corais já teriam feito valer a pena nossa ida, a noção de estarmos em um lugar verdadeiramente especial  tomava conta de nós.

Los Roques nos mostrava uma faceta do Caribe que já não se pode encontrar em nenhum outro lugar, são ancoragens desertas, os gigantescos catamarans de charter não existem e ninguém lhe aborda querendo vender alguma coisa ou algum serviço. A natureza é exuberante, as aves dão um espetáculo enquanto devoram um enorme cardume de peixes e o enorme silêncio nos transporta para uma época distante.

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Caio Francisqui
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Imagem de Nossa Senhora debaixo da água
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Caio Madrisqui

Nos dias que seguiram, fomos explorando outras ilhas e praias, e cada ancoragem aumentando ainda nosso estado de choque com a beleza deste lugar.  Em Caio Crasqui, fomos ao delírio durante um mergulho entre cabeços de corais e cardumes de tarpões , barracudas,  peixes- papagaio e muitos, muitos outros.

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Caio Crasqui
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Caio Crasqui

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Tivemos tempo de retornar aquele primeiro restaurante para uma ultima refeição antes de fazer nossa saída do país, o processo de check out foi bem mais simples e rápido. Nosso caminho de saída incluía uma parada em Caio de Água, propagandeado como uma das maiores atrações do Arquipélago.

A aproximação da ancoragem  foi especialmente difícil, pois a carta náutica foi de muito pouca utilidade, mas uma vez fundeados fomos desfrutar dessa ilhota que parece ter sido desenhada por um inspirado artista. Dunas e mata de restinga compõe o caminho até o grande atrativo do local onde uma pequena faixa de areia, vista somente na maré baixa,  separa os dois lados da ilha e as mais cristalinas das águas se tocam ao quebrar das ondas. Lugar mais que perfeito pra rechear o álbum de fotos e comungar com a natureza.

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Caio De Água
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Caio de Água

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O entardecer já se apresentava, era hora de deixar Los Roques e seguir pra Bonaire enquanto ainda havia alguma luz do sol, do contrario o risco de ficar preso em um banco de areia seria enorme. Enquanto contornávamos a última ilha, um presente de despedida, fisgamos um peixe minutos após largar a isca, um capricho que seria apreciado no dia seguinte já em Bonaire, colocamos a proa para Oeste  e perseguíamos o sol, Los Roques desaparecia rapidamente de nossa vista, mas vai demorar a sair de nossas mentes e corações.

Não foi a primeira vez que fomos desaconselhados a irmos a algum lugar e fomos ainda assim, e como das outras vezes não nos arrependemos. Nossa decisão por viver a bordo e navegar pelo mundo é também a escolha por buscar uma rota diferente, de sair do caminho mais traçado e convencional. De maneira alguma vejo nossa decisão como inconseqüente, éramos cientes da situação da Venezuela.

O propósito de navegar mares afora também para ir de encontro ao desconhecido e desvendar  lugares e culturas com nossos próprios olhos é um exercício de humildade e que ajuda a desmistificar conceitos e achismos, e assim, podemos criar nossas próprias opiniões ao invés de seguir propagando o que alguém um dia “ouviu falar”.  É claro que não podemos ser imprudentes, mas um pouco de pesquisa e informações baseadas em fatos podem nos levar a territórios pouco explorados, que antes apenas permeavam nosso imaginário.

Foi uma  decisão acertada e ficamos felizes em ter navegado por estes mares. Hoje carregamos um pouquinho de Los Roques e da Venezuela em nossos corações. Deixo  nossa solidariedade  e um profundo desejo de dias melhores a este povo acolhedor.

 

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7 comentários em “LOS ROQUES: A Venezuela que não se houve falar.

  1. Fantastico !!!!! Amei o texto claro e apaixonante. Parabens por saber expor tanta beleza com a visao do coracao e com a escrita pautada em uma realidade vivenciada , enchendo de desejo seus leitores . Muito orgulho desse Capitao !!!! Siga sempre em busca de novas ancoragens …

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