1 ano da travessia: O rito

Há exatamente um ano, zarpava de Salvador – Bahia, um pequeno barquinho de madeira, carregava naquele momento 3 almas, uns quantos sonhos, uma quantidade absurda de comida enlatada e uma obsessão.

O Unforgettable, um maduro veleiro de 52 anos teria pela frente sua maior navegada. Durante todo o mês de Janeiro teria 2500 milhas náuticas a percorrer, um desafio inédito em sua já não tão breve existência. Havia sido tratado com todo carinho nos meses que antecederam a partida, pintura de fundo, revisão do motor e estaiamento, adaptações para longas passagens.

A fortuna de um Capitão consiste em um bom barco e uma leal tripulação. Quanto ao barco lhes digo que não foram uma, duas ou três pessoas que ao se deparar com aquele veleiro me disseram, “Este barco é marinheiro” , de tanto ouvir este mantra, não me restava nada senão acreditar.

Quanto à tripulação,  eu contava com minha futura esposa, uma valente perseguidora de novos horizontes, cujo equilíbrio, cautela e sensatez me são mais indispensáveis que qualquer bússola, carta ou GPS. Além dela se juntou a nós um marujo de carreira, um artista, um carioca da gema, expert em elevar os espíritos. Já em Fortaleza, após dobrar a esquina do continente e de uma semana de velejadas perfeitas, golfinhos saltitantes,  desafios vencidos e confiança aumentada, veio se juntar a nós um irmão que a vida me deu, um guerreiro de costas largas, coração gigante e disposição inabalável.

Cada um de nós carregava suas próprias ambições, preocupações e ensejos, em comum todos temos uma sede de descobertas pelo que nos aguarda na outra margem, e pelo que há de ser descoberto dentro de sí mesmo.

Como estar preparado para algo que nunca se fez antes? Não são poucas as vezes que nos deparamos com essa situacao ao longo da vida. Nesse pequeno paradoxo reside a beleza e importância dos ritos de passagem, me lembro de zarpar de Fortaleza e não olhar  pra trás. Eu já havia ido muito longe para fraquejar, longe de mim naquele momento qualquer prepotência ou arrogância, mas só havia uma maneira de saber se eu  e meu barco seríamos capazes de chegar ao Caribe.

O princípio de uma travessia traz emoções conflitantes, cada milha conquistada é uma milha mais longe da costa, e assim se passam vários dias, até que finalmente se iniciava uma agoniante contagem regressiva para a chegada ao outro lado.

Os dias no mar passam de maneira diferente, simplesmente nada mais importa além do bem estar da tripulação e da embarcação, a vivência do presente é levada ao máximo, a vida se torna simples e cada pequeno acontecimento pede uma celebração.  Foram 11 dias num estado de lucidez turva, onde tensão e cansaço se fundem às maravilhas de cada nascer e por-do-sol.

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Gostaria de me lembrar muito mais daqueles dias, mas acho que se trata de um inteligente mecanismo mental, afinal não se passa impune a dias a fio em constante estado de alerta e preocupação. Ainda que não tenhamos enfrentado tempestades e ondas gigantes, a pressão de levar meus tripulantes sãos e salvos aos destino prometido pesavava sobre meus ombros.

Às 14 horas do 11° dia, avistamos terra, de fato nossa posição e rumo estavam certos, Barbados à vista  e pisar em um chão firme  era uma questão de horas, o planejamento dos últimos anos se provava correto, as palavras daqueles que diziam que o barco era capaz também, o agouro dos discrentes se esvaía,  e quatro corações batiam acelerados.

Uma obsessão chegava ao fim, qualquer dúvida em relação ao barco virado poeira, e uma certeza me invadia, “essa viagem não para por aqui”. 

PS: Confira a íntegra dessa travessia nos 4 épisodios  de vídeo em nosso canal do YouTube.

2 comentários em “1 ano da travessia: O rito

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