A angústia da espera, e o destino fora de alcance…

    Uma das melhores sensações de quando se vive a bordo é a de ser senhor do próprio destino. Uma mudança de ares, de vizinhança ou até de país pode estar a algumas milhas navegando, o que por sí só já é maravilhoso.

     Acordar cedo, preparar o barco e zarpar, esse ritual repetido centenas de vezes onde eu e Georgia já temos nossas funções bem estabelecidas, nos propicia um grande prazer. Após um café da manhã nem tão demorado nesses dias, vou para o convés, tirar as capas das velas, verificar o motor e o combustível, arrumar o cockpit e ajustar os eletrônicos. Georgia, prende tudo na cabine para que nada caia ou vire quando o barco adernar, prepara lanches e bebidas para navegada, e deixa os equipamentos de vídeo e foto já a mão. Após essa gostosa rotina, zarpamos, e eu costumo brincar dizendo… – Será que não estamos esquecendo de levar alguma coisa? Definitivamente não.. Nossa casa esta ali, viajando com a gente. Eu, minha companheira, minha casa e o mar. O mundo todinho está ao alcance da minha vista, e quase mais nada importa.

     Agora, após o Furacão Irma, este manifesto de poder da mãe natureza, sobram dúvidas e nosso rumo é incerto. É preciso humildade dobrada pra aceitar a espera. Irma veio com tudo e afetou milhares de vidas e famílias Descuido, complacência ou soberba, difícil dizer, mas ninguém nas ilhas Virgens Britânicas esperava uma catástrofe tão horrível. Nós, sempre tão alertas, embarcamos nessa onda de tranquilidade que banhava os moradores e deixamos nosso barco lá. Verdade que tomamos diversas precauções, mas se tratando da tempestade do século, a única precaução útil é não estar lá. Com dor digeri essa lição, e sigo em frente com orgulho ferido e atenção triplicada.

      Não foi a primeira peça que a vida a bordo nos pregou, não será a última. A dor e a confusão que estão imersos os habitantes das ilhas relativizam nosso drama, a força de vontade que eles demonstram pra reconstruir seus lares me servem de combustível. Em uma bela semana de agosto, nadávamos até o corpo não aguentar mais e desfrutávamos de um dos lugares mais belos do planeta, na semana seguinte tudo pelo que trabalhamos nos últimos 5 anos fora posto em cheque, barco quebrado, notícias esparsas e controversas e a impossibilidade de retornar até lá pra fazer alguma coisa. Minha resposta automática foi levantar a cabeça e agradecer, não deixar um segundo para se abater ou se vitimizar, por sorte não estávamos lá durante o ocorrido.

    Já faz um mês que o Irma passou, tempo suficiente pra lamber as feridas, passar os dedos na coleção de facas, escolher aquela com cabo de osso e floreio gaudério, limpar a lâmina na barra da camisa e pôr entre os dentes. Tortola, ai vamos nós, e vamos para resolver. #FUCKYOUIRMA

 

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Virgin Gorda Yacht Harbor – Pátio

Um comentário em “A angústia da espera, e o destino fora de alcance…

  1. Boa sorte meus amigos, que o prejuízo seja leve, sei que agora será o um novo capítulo da história de vcs! Mãos a obra! Que Deus acompanhe e ilumine cada obstáculo para que vcs enxerguem a melhor solução! Tenham certeza que estamos todos torcendo por vcs! Um grande abraço Bruno

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